domingo, 27 de outubro de 2013

contos de domingo - água, cinzas, renovações.

'Ela tragou toda a minha mentira, toda a minha cena, e soprou cada milimetro da sua confiança, do seu auto-controle. Tomou um gole de qualquer coisa que desceu rasgando a garganta, e gargalhou em cima de toda a minha tristeza. Aquela vadia.' 

             E talvez Valerie estivesse cansada de se esconder, quem sabe, se ela pudesse tomar o controle, as coisas melhorassem. Como se pode notar, foi isso que ela fez, ultrapassou todas as barreiras que eu havia colocado e invadiu cada centímetro de mim. Por 10 ou 15 minutos, eu me senti, ou ela, inabalável, insensível, quase transcendental. Até que eu vi a água.
            Quem é filho da água sabe o que sente quando a vê brotar, principalmente de alguém. Quem já passou tanta vezes pelo outro lado sabe, o que tornar-se água. Mas Valerie não sabe, aquela puta egoísta não liga pra nada além dela mesma. E ela não quis sair de mim, não enquanto o circo ainda estava armado. Deixei que ela ficasse, deixei que ela cuidasse das coisas, eu não queria mais ter que assumir os erros dela. Quiçá eu nem quisesse voltar. Mas eu precisava, antes que ela tornasse tudo mais desconsertante.
             Depois que ela já havia feito todo o estrago e saído à francesa, eu voltei. Enxuguei a agua e levantei, me despedi e tomei meu rumo, deixando a todos com a mesma cara de sempre, sem entender nada.  Eu sei que só uma questão de tempo para que ela volte, e eu tenha que arcar com todas as consequências novamente. Não sei do que ela capaz, principalmente, quando tem liberdade, ou se ela gosta de ser toda segura para poder esfregar tudo isso na minha cara, só sei que quando ela está, e eu só fico na assistência, tenho que admitir que sinto uma inveja sem tamanho dela.
           No outro dia pela manhã, eu acordei com o cheiro de queimado invadindo a casa, algo me dizia que alguma coisa não estava bem. Fui até a cozinha, havia um monte de cinzas pelo chão, andei mais depressa pensando no que poderia ter queimado e já um pouco desesperada. Em cima da mesa, havia um bilhete, e ao lado dele, um pote de metal de onde voavam pedaços de papel queimado e cinzas. Não consegui identificar os papeis, então o bilhete.
'Fiz isso por nós. Não se chateie, você não precisa mais disso. Avante.
Até logo.
Valerie.'
         Corri até o quarto de novo e reparei que a porta estava aberta e caixa de cartas revirada, mas não vazia. Ela sabia o que tinha que jogar fora, sabia o que eu tinha que esquecer, mas terminantemente, eu não queria que fosse ela que tomasse a frente disso. Mas ela fez, e mais uma vez, ela provou pra mim o quanto eu era fraca perto dela.

'Observei-a correr pela casa feito uma idiota, com o coração acelerado e cheio de lembranças. Aquela criança ainda tinha muito o que aprender, muito o que caminhar. Era hora de escrever uma nova história, uma que eu haveria de contar.' 

a todos vocês que ainda não desistiram desse cantinho aqui, mesmo com tanta ausência.

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