quinta-feira, 16 de julho de 2026

ao barro.

 não foi a vida que me ensinou, foi você. 

tentei começar isso e comecei. Não da maneira ideal, não com um tempo reservado pra fazer primeiro a minha obrigação e depois a minha diversão. Até porque, isso não é divertido. Só afins de confissão, estou fazendo isso no meio do horário de trabalho, porque, mais uma vez, as paredes vão me engolir. 

e aqui, peço desculpas. Não foi assim que você me ensinou. 

Eu tenho feito tantas coisas da maneira que eu acho que tenho que fazer e não como você me disse, que eu tenho medo de esquecer como foi que eu aprendi. Tenho medo de esquecer a cor dos teus olhos, a textura da tua pele e o timbre da tua voz. Mas, ao mesmo tempo, lembro de tantos pequenos detalhes: da tua xícara vermelha, da última piada que te contei, das nossas poucas palavras e muitas risadas. 

Eu que li tanto, vejo tanto, não tenho coragem de ler duas palavras e duas datas escritas num pedaço de pedra. Porque eu sei, que se eu ler o decreto da tua ausência, eu vou ser preenchida pela falta.

E aqui, peço desculpas. 

a memória e a lembranças são duas irmãs. duas filhas de uma mesma mãe chamada Saudade. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

espiral.


Costumava dizer e ouvir de mim que não existe caminha de volta. 

não quando se escolhe girar. 

nada é cíclico, o que há, na verdade, é espiral. 

roda. sofre. muda. roda. 

E nesse caminho-espiral, os enjoos são comuns no começo. Mais comuns que as ânsias são as despedidas. Ninguém é obrigado a aguentar o amargo na boca sem vomitar. Por isso, partem. 

Descem, caem, saem, somem. 



Olhava eu e via pra mim que os caminhos-espirais são aqueles de bases maiores que afunilam e tornam-se pequenos ao tocar o céu. Não. 

- perspectiva. 

furacão-espiral. 

roda. sofre. muda. roda.

Gira.

Fico eu. 

Girando no caminho-furacão. 


Azar de quem fica

Maldito quem vai

Eu não sei nem o cheiro

De abraço de pai

Repito, incansável

Mais forte agora

Eu nunca fui embora

Eu nunca fui embora

Eu nunca fui embora


terça-feira, 6 de junho de 2023

tijolos.


palavras são como tijolos de uma casa,
sei que há aquelas feitas de concreto puro, modernas. 
há as de madeira, um pouco mais vintage. 
mas as minhas palavras são tijolos. 

assim, de barro, moldáveis, hora quentes, hora duras, às vezes quebráveis, mas sempre tijolos. 
sólidas e duras, as unidades abandonadas delas servem para muita coisa: constroem muros, usam para brincar e, inclusive, para agredir. 

os cacos das minhas palavras-tijolos desenham outras histórias, outras palavras. 
minhas palavras-tijolos juntas construíram o que eu sou, me tornaram a casa-eu. 
me sustentam e eu a elas. 


sopram, sopram. 
mas sou sólida. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

quando lembro de escrever

 lembro de mim quando não era eu.

quando escrever era minha válvula de escape,

minha fortaleza e minha única realidade possível,

quando sonhava em viver de palavras da minha cabeça, não de palavras de quem me lê. 

lembro de mim quando escrever era tudo que me restava para sentir. 

quando o sentir era tudo que eu tinha para escrever. 

lembro de mim quando escrevia.

lembro de mim quando sentia. 

lembro.

ainda que não sinta. 

ainda que não escreva.

ainda que não lembre



terça-feira, 2 de março de 2021

pássaros.


Como Prometeu, todos os dias tem um pássaro que se alimenta de algo meu que se regenera. 

E quando o sol sai, eu tento matá-lo

com o peso das palavras que engulo.

No peito-gaiola, eu ouço o pássaro cantar, implorando por liberdade. 

O pássaro continua a se alimentar das migalhas que o meu peito ficou. 

Mas, se abro o peito e liberto. Seria só isso e nada mais?