Ela tomou num gole só o líquido transparente de cheiro forte que havia dentro do copo, colocou qualquer coisa pra tocar e virou-se pra mim. Havia chego a hora. Tempo de acertar as contas. Ambas sabíamos disso.
Chovia como há muito não se via, o dia era de cinza impenetrável. Não era possível ver gente nenhuma na rua. Mas eu tinha companhia. Ela que tinha tempo que não passava por aqui, também sabíamos disso. Era desgastante, porque quando se tratava dela, nada bastava, ela queria sempre tudo que eu tinha pra dar, de ossos a miolos. Era perturbador, porque ela não me pedia licença. Só dominava tudo e me fazia limpar os estragos depois que terminasse. Eu mordia meu lábios, tentando saber por onde começar, mas logo fui interrompida.
- O que é que você pretende da merda da tua vida? - ela disse, como sempre, firme.
- Eu quero que você pare de invadir as coisas, de administrar como se fossem suas, eu não consigo conviver com isso. Não mais. - eu estava prestes a cair no choro.
- Isso não tem a ver comigo. Nunca teve. Eu sempre fui a sua melhor parte. E nada que você fale vai anular isso. Aceite, meu anjo. As coisas são melhores comigo por perto. - eu podia ter ouvido ela rir no final, mas o tom piedoso da voz dela fazia tudo aquilo parecer mais doloroso ainda.
- Tanto faz o que você pensa, Valerie. Seja honesta comigo, você quer voltar? Você quer acabar com o pouco que resta de mim?- eu quase a implorava.
- Você não tem escolha. Eu vou voltar.
Não sei por quanto tempo ficamos ali, mas quando eu dei por mim, estava com a garrafa de gim no fim e a cabeça entre os joelhos, aos prantos. Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando decidi chamá-la.
Maldita.
Havia mais um daqueles milhões bilhetes que ela me escrevera a vida inteira. Estava amassado, dentro do armário do banheiro, onde ela saberia que procuraria mais tarde algum remédio pra dormir.
O problema não sou eu.
É você. Até breve.
Valerie.
Tomei meus remédios o mais rápido que pude e caí na cama, a dor era insuportável.
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