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Eu preparei o meu coração e uma carta pra te dizer adeus, dei passos firmes até a porta, engoli o choro e me fiz forte, eu estava aparentemente preparada, havia chegado a hora, levantei a cabeça e rodei o trinco.- Olá - ele disse sem me olhar nos olhos, caia uma chuva fina na soleira da porta, e os sapatos dele estavam molhados - eu queria...
- Eu já sei, entre - eu interrompi tentando demonstrar toda a minha coragem.
Ele tirou o sapatos e deixou-os no tapete da entrada, eu virei de costas e me dirigi até a poltrona que ficava uns metros a frente.
- Café? - eu perguntei casualmente.
- Sim, está meio frio hoje - ele respondeu passando as mãos nos braços para tirar as gotas de água que ficavam por cima da jaqueta.
Enchi as canecas, mais tarde eu me livraria delas, mas por hora eram uteis. Ofereci uma a ele e fique com a outra, sentei e respirei fundo.
- Martin, eu não vou fugir, não vou deixar você abandonar a Samantha, e não faço isso por mim, não faço isso por nós, faço isso pelo filho dela... uma criança que não tem culpa de nada...Não vou deixar que ela cresça sem pai. - eu já gaguejava nas ultimas palavras, droga, sem chorar Valerie.
- Mas, mas você nem sabe o resultado do DNA ainda, como é capaz de desistir de tudo ? Nós nos amamos Valerie, não posso viver com a Samantha, não posso criar um filho que não é meu, é com você que eu quero ter filhos, não com ela ! - os olhos dele já se enchiam de lágrimas, eu tentei não olhar, mas eu sabia.
- Martin, você acha que eu vou conviver com esse medo pra sempre ? A Samantha já foi capaz de tanta coisa, fugir dela, deixar ela e essa criança aqui, acha que vai deixá-la feliz ? Não, ela vai ficar furiosa, vai nos caçar em cada canto do planeta e nós nunca estaremos em paz, o filho sendo seu ou não, aliás de que vale esse exame ? Ela pode mexer os pauzinhos e falsificar, é simples pra ela.
- Valerie, você está desistindo ? - eu não esperava que ele me perguntasse aquilo, pensava que ele iria aceitar meu adeus e ir embora, não contava com perguntas, merda.
- Eu, eu estou pensando em mim Martin, eu não posso viver fugindo. Eu fugi das coisas a vida inteira, eu fugi da culpa, dos problemas, das pessoas... E chega, chega de sempre correr, eu preciso ancorar Martin, preciso achar meu lugar no mundo, e não é pagando por uma coisa que não fui que fiz que isso vai acontecer.
- Eu só esperava um apoio seu, que a mulher que eu amo estivesse do meu lado. - ele largou a caneca na mesinha e colocou as mãos no rosto, tive que conter o impulso de levantar para abraça-lo.
- Eu estive do seu lado todo esse tempo, só que eu preciso ser egoísta agora, infelizmente. Sem dúvida nenhuma, eu nunca fui tão feliz quanto fui quando estávamos juntos, mas não estamos mais, eu preciso seguir em frente. - quando dei por as lágrimas já escorriam.
- Eu não entendo, da ultima vez você disse que iria comigo, que me amava, aconteceu alguma coisa nesse tempo ? - ele também chorava.
- Eu pensei em mim, só isso. Eu me dei conta que a unica pessoa capaz de lutar por mim e me fazer feliz, sou eu, as pessoas que eu amo podem contribuir.
Ele se levantou, ainda chorando, pegou a minha mão e olhou nos meus olhos.
- Eu lutaria por você, pela sua felicidade, mas não posso fazer isso se você não me quer mais na sua vida, se não quer me acompanhar. - ele respirou fundo e virou meus dedos na minha direção, eu observei as pontas queimadas e deixei as lágrimas caírem eu sabia o que significava. - eu vou Valerie, eu vou e nunca mais volto se você quiser, mas não esqueça, nem um minuto, que eu lutei por você e ainda luto se for preciso, eu só não consegui te salvar, mas eu faço o impossível pra isso.
- Martin...- eu toquei o rosto dele - eu não sei nem se eu estaria viva se não fosse você e tudo que fez por mim e nada, além do meu egoísmo, justifica o que eu estou fazendo - respirei fundo - adeus Martin, seja feliz, por favor, é só isso que eu te peço.
Nós dois nos levantamos e ficamos alguns instantes parados olhando um pro outro, pra registrar nossa provável ultimo encontro. Ele me puxou pra perto e segurou a minha cabeça no peito, encostando o queixo na minha testa, eu envolvi a cintura dele com os braços.
- A vida não é justa, minha pequena, nunca foi e nunca vai ser. - ele segurou meu queixo me fazendo olhar nos olhos dele - Se precisar de alguma coisa, nem que seja um pacote de pão, me avise - ele deu um sorriso torto.
Nós nos beijamos, não em nome da paixão, nos beijamos como um autor que sente orgulho do seu texto e beija a folha do papel. Nos beijamos selando o fim da nossa obra, de tudo que construímos juntos, nos beijamos como quem diz adeus.
Ele me soltou e foi até a porta, calçou os sapatos, e virou-se pra mim e apontou pro meu bolso. Eu quase não entendi, até que me lembrei, ele me conhecia bem demais, sabia que eu tinha escrito alguma coisa sobre aquilo.
- Tem mais Los Hermanos do que eu posso aguentar, não é ? - ele disse levantando um sorriso amigável.
- Por que será ?
Ele fechou a porta, eu fiquei ali uns instantes parada tentando acreditar no que aconteceu e enchi mais uma caneca de café.
FIM.
à Fernanda Delduque e Johney Silva, dois dos leitores mais assíduos e queridos do Flash c:
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