[ depois de quase 3 anos enrolando, o projeto do meu 'livro' saiu do buraco. Postarei os 3 primeiros capítulos e conforme for a repercussão e aceitação, eu continuo. Espero que gostem. Felicidades ! ]
1
Rodei meu copo de whisky até enjoar de ver aquele líquido marrom se mexendo, desliguei o rádio que já repetia o LP pela terceira vez. Dei um trago fundo num cigarro que eu havia deixado na caixa de cartas antigas, bendito erro meu. Sentei no degrau da escada da varanda de modo confortável e não respondi a vizinha quando ela me cumprimentou, foda-se essa velha que vá cuidar dos chapados dos filhos dela que vão de motel em motel cheirando tudo que tem pelos bolsos. Se eu não arranjasse um jeito rápido de pagar o aluguel logo eu teria que sair daquela vizinhança mesmo, não valia a pena criar laços com ninguém, e já que eu não sabia fazer porra nenhuma da vida, eu realmente teria que me mudar. Nisso a velha me volta e pergunta se o carteiro já passou. Mas que diabos, não é ela que fica o dia inteiro em casa ?- Não vi Dona Bárbara, não vi - respondi sem olhar pra cara dela, eu não queria conversa
- Ah, é que o Betinho fez uma encomenda do Sul e tem que assinar o canhoto ... - ela continuou falando mesmo assim.
- Poxa legal. Tenha um bom dia - levantei-me com a cabeça quase em frangalhos.
Acendi outro cigarro, mudei o LP do toca discos e botei a cafeteira pra funcionar, precisava de um café pra me tirar aquela sensação de ressaca. Ouvi a campainha tocar. Velha dos diabos, não entende que eu não quero conversa ? Tocou de novo.
- Já vai ! - eu gritei, mas que velha infernal.
Tentei fechar a porta logo que abri, mas a mão dele já a segurava logo acima da minha cabeça. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, seu rosto coberto por um tom vermelho e sua roupa toda amarrotada.
- Valerie, espere. Por favor, me deixe explicar porque vim até aqui. Eu só quero conversar. - ele disse com a voz cheia de pesar e bebida.
- Escute Martin, eu não tenho mais nada pra ouvir de você, vá embora daqui antes que eu chame a polícia. - disse eu no tom mais firme que consegui.
- Não precisa disso Valerie, eu preciso de 5 minutos, juro que não te tomarei mais que isso. Eu preciso te contar uma coisa. - Ele parecia mais sério agora, mesmo que ainda embriagado.
- 5 minutos, Martin e depois você dá o fora - tirei o meu corpo da frente e o deixei passar.
Ele parecia não tomar banho há uns 2 dias, o cabelo brilhava, gorduroso. Sentou-se no sofá e eu na poltrona.
- Seu tempo está passando. - eu disse olhando pro relógio na parede.
- Valerie, eu queria... bem eu queria te pedir... desculpas primeiramente. E gostaria ... - ele secou as lágrimas discretamente - bom, eu não estaria aqui se não fosse por Louis, foi ele quem me disse para tentar conversar com você de novo. Eu não queria, você sabe o quanto eu sou orgulhoso, mas Valerie, eu preciso te contar.
- Martin, eu não tenho o dia inteiro e não sei como você e Louis ainda se falam depois do que houve, e nem me interessa. Mas seja breve, por favor - senti minha garganta trancar e lembrei-me do café - Espere um minuto aqui vou buscar café, aceita ? - eu ofereci, buscando meu ultimo pingo de gentileza.
- Não obrigada, prefiro não tomar demais seu tempo - ele respondeu firmemente.
Peguei uma caneca grande, uma que havia ganho de Natal do homem de roupa amarrotada sentado na minha sala.
- Prossiga Martin, o que queria me dizer ? - ele ajeitou-se no sofá ficando mais perto de mim.
[continua]
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