domingo, 18 de março de 2012

Em respeito ao meu vício

Embora a manhã já estivesse bem avançada, ainda estava escuro, deduzi que seria por causa das nuvens espessas e escuras que anunciavam a chuva. Olhei no relógio e vi que já estava na hora de sair pro trabalho, isto aborreceu-me por uns instantes. Tomei um banho e coloquei o mesmo uniforme cinza com azul marinho, peguei o ônibus e passei pelos mesmos lugares de sempre, apertei a campainha e desci. Meu celular tocou, distraindo-me. Era uma mensagem, logo imaginei que fosse da minha colega avisando que iria se atrasar, enganei-me. Li sem acreditar, respirei, tremi, senti meus olhos arderem. 


- Mas...mas que diabos é isto - balbuciei comigo, incrédula. 


Um mês e meio, eu calculei rapidamente. A chuva começou a ficar mais forte e eu notei que continuava parada no meio da calçada, dei dois passos largos para ficar em baixo da marquise do prédio. Coloquei o celular de volta no bolso, subi os dois lances de escada e comecei a ouvir o movimento caótico do jornal. A gritaria e a movimentação distraíram-me até a hora do almoço, eu não tive tempo pra pensar em nada que não fosse a coluna esportiva do dia. Sai pra almoçar no mesmo restaurante da frente da editora. Vi alguns colegas de trabalho e perguntei se podia me sentar com eles, puxaram-me um cadeira e senti meu celular vibrar pela segunda vez no dia. 


- Eu não posso acreditar - falei alto demais, pois a colega que estava ao meu lado, dona de uma curiosidade inocente, colocou seu faro de jornalista em ação.
- É ele, não é ? - disse segurando a minha mão. 
- Sim - eu respondi ríspida, baixando os olhos. 
- E o que quer dessa vez ? - ela não parecia satisfeita com a situação
- Diz que precisa conversar comigo - eu falei gaguejando. 
- E você vai falar com ele ? 
- Não pretendo, mas se ele quiser me ligar, que ligue. Não me importo seja lá com que tenha a dizer - admiti. 
- Você quem sabe, só não de o braço a torcer - apertou a minha mão e voltou-se ao seu prato. 


Não senti vontade de comer, voltei ao jornal, pois queria deixar a edição do outro dia já encaminhada, oque infelizmente não me tomou tempo. Sai da editora poucos minutos depois e fui andando até em casa. Passei na loja de doces e comprei balas de anis, certa de que elas me distrairiam. Cheguei em casa e joguei as coisas na mesinha de centro, sentei-me na poltrona com um copo de wisky e pus-me a pensar sobre as mudanças que a minha vida tomará nos últimos 4 meses. 
Ouvi meu celular tocar, sem nenhuma surpresa ao ver a chamada. 


- Alo - atendi, indiferente. 
- Eu queria te pedir desculpas por ter sido tão rude, mas é que eu tive meus motivos- continuou a voz a se argumentar - eu tenho problemas com isso, me desculpe - me parecia até atropelado demais - Eu já perdi tantos amigos pro vícios que eu pensei que com você pudesse assim, se eu soubesse disso antes, talvez a gente nunca tivesse se envolvido - me pareceu terminar, finalmente. 
- Então tá, tchau, passar bem - respondi sem pensar muito. 

Mortos não falam, fiz muito em te atender. Ingrato, sujo, hipócrita. Meus vícios, não vão me matar, meus vícios me dão uma uma boa dose de dopamina, mesmo que passageira, existente. Não me venha com essa de que gosta de mim, que se preocupa, que quer meu bem. Não após ter me trocado, me machucado e pedido pra que eu morresse. Você e a sua doçura enjoativa, você e a sua preocupação falsa: sumam da minha vista, da minha vida. GRATA !


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